Sensivelmente a cada cinco anos, Hong Sang-Soo e Isabelle Huppert encontram-se para fazer cinema. Desses encontros, provavelmente das suas sincronias, atritos, aproximações e intocáveis – no fundo, desses interstícios que aproximam e afastam – vão surgindo os filmes. Em 2012, em Da-reun na-ra-e-suh (Noutro País, 2012), as variações da ida de Anne (assim se chamava a personagem de Huppert) à Coreia já falavam de tradução. Talvez não literal mas de algo que, em vez de ser lost in translation ou perda na tradução, se ganhava em função de um estranhamento com o espaço, a linguagem e cultura novas. Na obra de Sang-soo, Huppert começa assim por afirmar-se como a agente dessa delicada estranheza que é afinal parte fulcral dos encontros de que o seu cinema é feito.

Em 2017, com La caméra de Claire, a viagem inverte-se e é Sang-soo que vem filmar Huppert a Cannes, em França. A sua personagem, uma professora de música vinda de Paris, sugestivamente chamada Claire, fotografava com frequência as diversas personagens, revelando assim, aclarando, detalhes decisivos para compreendermos as emoções e relações entre aquelas pessoas. Aclarar significava afinal ver e rever lentamente com atenção o mundo. Numa das cenas do filme, Claire ensinava uma das personagens a recitar um poema em francês. Talvez aqui Huppert fosse pelo contrário um agente de aclaramento, mesmo que isso no cinema do autor coreano signifique apenas o ponto de partida para uma subtil suspensão de sentido que revela afinal a complexidade do universo. Isto é, de um sentido claro.
Talvez esteja aqui uma chave para entrar na importância hoje do cinema de Hong Sang-Soo. Nenhum cineasta compreende como ele que os encontros entre as pessoas são essa gestão de estranheza e aproximação, na qual a tradução – não apenas das palavras de línguas distintas, mas também as expressões do outro, suas intenções e emoções – é parte fundamental.
Em 2024, Isabelle Huppert volta à Coreia para fazer Yeohaengjaui Pilyo (As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul, 2024) (Já agora, o péssimo título em português apesar de manter o estatuto da “viajante”, preferiu substituir as suas “necessidades” do título inglês, para um anódino “as aventuras”). Huppert passa de Claire a Iris, revelando no nome da sua personagem uma certa continuidade nesta sugestão de um “dispositivo” que permite ver melhor, ver além. O método muda, passamos da fotografia de La caméra de Claire às aulas de francês que Huppert dá como forma de subsistência. Sem recurso a livros como revela a dado momento, o seu método é bastante singular. A professora pergunta às suas alunas o que sentiram quando tocavam um instrumento, ou a uma delas o que sente quando pensa no facto de passar com frequência diante de um monumento no qual está inscrito o nome do seu pai. De seguida, Huppert escreve em francês essas impressões, esses sentimentos, em pequenas fichas que dará às alunas para lerem e memorizarem. Neste método, as línguas aprendem-se com o coração, uma vez que o impacto das emoções expressas num idioma estrangeiro torna-se assim mais eficaz.
Evidentemente, interessa pouco ao filme que o método funcione de facto, pois como acontecia com Claire no filme de 2017, a personagem de Huppert penetra no interior das suas personagens, aclarando os seus sentimentos, naquilo que mais se parecerão com simples momentos de psicanálise. “Haverá um verdadeiro pai a contemplar?”, escreve em francês, ao interpretar livremente os sentimentos da sua aluna. Na segunda metade do filme, iremos conhecer o jovem poeta In-guk (Ha Seong-guk), com quem Iris partilha uma casa. Num par de cenas, o filho terá de apaziguar a raiva da sua mãe, ao saber do seu fascínio por esta viajante francesa. Este justifica-se assim: “ela é alguém que procura a iluminação (enlightment) enquanto vive num mundo secular”.
Se é verdade que parte do charme da escrita de Sang-soo consiste em manter as suas personagens numa certa suspensão face às suas intenções e ao seu passado, no caso particular de Huppert esse estranhamento, que já vem de Noutro País, é aqui reforçado. Huppert, figura que procura a iluminação, caminha deslizando, surge e desaparece pelos bosques, não por acaso o verde da natureza é a cor do seu casaco e os motivos florais os do seu vestido. A sua frontalidade e despretensão, parecem afirmar-se, lado a lado, com uma certa fragilidade e tolice. Magia e mitologia de uma viajante sobre a qual nada sabemos, que surge no bosque tocando flauta ou que adormece numa pedra, e que parece ter caído numa situação que a obriga a dar aulas pela primeira vez, a inventar, como num passe de mágica, uma simples forma de sustentar e sobreviver.
Desta forma, a clareza de Iris assenta nessa estranheza face ao seu passado. Estranheza essa que, de certa forma, se expande por todo o filme e pelas suas personagens. Todos parecem deslocados numa certa “awkwardness” à qual é necessária um esforço de tradução: coreanos e uma francesa que tem de improvisar um inglês, para que se possa chegar a uma terceira língua; além disso, essa abertura dos sentimentos entre pessoas que pouco se conhecem (e aqui incluo a relação entre os já referidos mãe e filho).
Talvez esteja aqui afinal também uma chave para entrar na importância hoje do cinema de Hong Sang-Soo. Nenhum cineasta compreende como ele que os encontros entre as pessoas são essa gestão de estranheza e aproximação, na qual a tradução – não apenas das palavras de línguas distintas, mas também as expressões do outro, suas intenções e emoções – é parte fundamental. Essa tradução que é expressa nos diálogos das suas personagens, mas em grande parte nas representações dos seus actores, tem talvez esse método de aclaramento. Falar e expressar o que se sente, para que os outros – nós – apreendamos parte disso com o coração.
★★★☆☆
